Marcha dos Atingidos de Regência a Mariana - 1 Ano de Lama e Luta

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Movimento dos Atingidos por Barragens, na comunidade de Regência

O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), juntamente com outras organizações, em um esforço grandioso, organizou e realizou uma Marcha dos Atingidos de Regência-ES a Mariana-MG, 1 Ano de Lama e Luta, seguida por um encontro e um grande ato no marco do um ano do crime socioambiental das empresas Samarco/Vale/BHP Billinton, com o objetivo de continuar denunciando e fortalecer a necessidade da luta e organização dos atingidos para garantir direitos e celebrar a memória dos mortos.

As atividades irão do dia 31 de outubro a 5 de novembro de 2016, marcando um ano do Crime, dentro da Jornada Continental pela Democracia e contra o Neoliberalismo.[1]

Índice

Porque Marchamos? - Carta dos atingidos por barragens para a sociedade brasileira e internacional[editar]

MAB na praia de Regência

Ao nos aproximarmos da data que marca 1 ano do grave crime ocorrido com o rompimento da barragem de rejeitos de minérios da Samarco (VALE e BHP-Billiton) no município de Mariana (MG), nós, os atingidos por barragens, organizados no MAB, com apoio de muitas entidades, organizações e movimentos populares nacionais e internacionais, decidimos realizar uma marcha de Regência no Espírito Santo até Mariana em Minas Gerais.

Porque marchamos?

Marchamos para denunciar este grave crime social e ambiental que abalou a bacia do Rio Doce e nosso país, considerado um dos mais graves crimes sociais e ambientais do mundo.

Marchamos porque devemos sempre lembrar as 19 mortes humanas e um aborto forçado. Marchamos porque devemos sempre lembrar as gravíssimas consequências para todo o povo que vive na bacia do Rio Doce, desde os operários da empresa em Mariana que correm o risco de ficarem sem seus empregos até os pescadores, comerciantes e moradores de Regência, na beira do mar, que muito perderam com este grave crime.

Marchamos porque ao longo deste ano verificamos que muito pouco foi feito para resolver os graves problemas ocorridos. E mesmo quando se tratou de fazer “acordos”, a imensa maioria dos atingidos não foi sequer consultada.

Marchamos porque acreditamos em nossa organização, na luta de todo nosso povo. Que através da organização e luta tem a esperança de ver seus direitos garantidos.

Marchamos porque não queremos que crimes como este sejam esquecidos, e que fiquem impunes, ou que venham a se repetir, pela irresponsabilidade das autoridades e empresários responsáveis.

Acreditamos firmemente que nossa luta, pela vida em plenitude, pelo emprego, por nossas terras, por nossos rios, pela água, pela natureza preservada, é absolutamente justa e necessária. Por isso marchamos de Regência a Mariana.

Acreditamos, e queremos muito, o apoio de todas as pessoas de bem, do Brasil e do Mundo, que querem, como nós, uma sociedade justa, fraterna e igualitária.

Apoiem, divulgando e contribuindo com nossa marcha, com nossa luta!

Águas para a vida! Não para a morte!
Um ano de lama e de luta. Somos tod@s atingid@s.[2]

Programação, atividades e relatorias[editar]

Marcha de Regência-ES a Mariana-MG[editar]

Saída de Regência dia 31/10 chegada em Mariana dia 2/11. Percorrendo o caminho da lama ao contrário. O trajeto desta marcha tem por objetivo dialogar com a sociedade nos diversos municípios afetados, fazendo panfletagens, conversas com as pessoas, debates em escolas, audiências publicas sobre o crime e o momento atual.[3]

Dia primeiro - Segunda 31/10/16[editar]

Atingidos começam marcha na praia de Regência[editar]
Marcha dos atingidos começa na Praia de Regência, Foz do Rio Doce

Atingidos pela Samarco começam marcha pelo caminho da lama.

Foi dada a largada na marcha dos atingidos pelo crime da Samarco (Vale/BHP Billiton). A atividade começou na manhã dessa segunda-feira (31), em Regência (ES), no local de encontro entre o rio Doce e o mar.

Pelo caminho contrário à lama, a marcha segue até Mariana (MG), onde será realizado o Encontro dos Atingidos da bacia do Rio Doce, entre os dias 2 e 5 de novembro.[4]

Na foz do Rio Doce, lama destrói turismo e economia[editar]
Praia de Regência-ES, Foz do Rio Doce.

A Marcha “1 Ano de Lama e Luta” teve início na praia de Regência, município de Linhares (ES), último local a ser atingido pela lama da barragem rompida em MAriana (MG), que destruiu a Bacia do Rio Doce por todo seu percurso. A localidade tem – ou tinha – sua economia baseada no turismo e na pesca, duas áreas que trabalhavam unidas, se fortalecendo.

“A nossa economia é encadeada, é um elo, um depende do outro, nós vivíamos do rio e do mar. Nossa comunidade é de pesca artesanal, e vendíamos os peixes pra restaurantes em Linhares, Vitória, Rio de Janeiro”, diz Luciana Souza de Oliveira, 42, funcionária pública da cidade capixaba.

“Os surfistas vinham surfar aqui, compravam o peixe, passeavam de barco, ocupavam as pousadas. Então quando o rejeito chegou nos nossos corpos hídricos, toda a cadeia foi afetada. Não só as pousadas e donos de restaurantes, mas a diarista que limpava o quarto, a cozinheira que cozinhava para os hóspedes, porque não teve mais turismo, e sem turismo eles não tem pra quem trabalhar, e estão automaticamente desempregados. Então o impacto foi 99 por cento com a chegada dessa lama de rejeitos aqui. As pousadas ficaram vazias, os restaurantes vazios, turismo ficou zero.”

A economia de Regência ficou inteiramente afetada pelo crime da mineradora Samarco, como pontua Giovanni Souza, 38, coordenador do MAB no Espírito Santo. O turismo era o meio de comércio, mesmo de forma informal. Ele informa que somente jornalistas e pesquisadores que estudam a situação vêm à cidade, e a economia está precária. A Samarco entrega aos atingidos um cartão de auxilio com um valor específico para a sobrevivência das famílias atingidas após o crime. “As pessoas tem consciência que todos são atingidos, mas a Samarco beneficia somente parte dos habitantes, o que causa conflitos na comunidade”.

Boa parte do turismo na cidade litorânea do Espírito Santo era baseada no surfe, outro setor afetado pelo derramamento de lama de rejeitos tóxicos na foz do Rio Doce, na cidade. “Eu não posso mais entrar no mar nem no Rio, e isso pra mim é uma dor que não se discute. Eu surfo, e não posso mais entrar no mar, fiquei muito impactada mesmo”, relata Talena Pereira Maciel, 25 anos, filha de Zenaide, dona de uma das pousadas de Regência. A jovem também fala sobre o impacto causado pelo crime na cidade, e a ineficiência do Estado e da Samarco na resolução dos problemas causados. “O peixe eles vendiam pra gente, que é dono de comércio, né, pra gente também fortalecer o pescador, e esse crime impactou muito, a comunidade toda em geral, manicure, pequenos agricultores, e se não tem gente (turistas), não tem o que produzir. A nossa cidade é cultural, e têm muitos eventos culturais, e estes eventos eles (Samarco e autoridades) ajudaram porque tiveram, não porque quiseram.”

No relato destas três pessoas, sendo duas delas moradoras de Regência, é possível ver o real impacto do rompimento da barragem do Fundão, em Mariana (MG), na vida das pessoas onde o Rio Doce passa. O turismo foi destruído, surfistas não entram no mar, turistas não aparecem, e todos os setores interligados à categoria foram duramente afetados. De manicures a professoras e donos de pousada, todas as pessoas da cidade capixaba foram duramente afetadas. Crianças ainda ficam doentes, com enjoos e ardência nos olhos, e são afetadas psicologicamente pela situação em que vivem suas famílias, sendo elas auxiliadas ou não pela Samarco.

Regência poderia ter se tornado uma cidade fantasma, caso os atingidos a abandonassem. Não se pesca, não se surfa e não se nada no rio, e todas as categorias ligadas ao turismo na cidade, do garçom à diarista, do pescador ao artista local, ficaram sem perspectiva e sem emprego, e dependem do réu para sua sobrevivência, que ao invés de estar sendo julgado e preso, gerencia a indenização para os atingidos, decidindo quem é ou não afetado pelo seu descaso com a natureza e a população da Bacia e da Foz do Rio Doce. O turismo que sustentava a cidade morreu, e a população luta pela sua sobrevivência, enfrentando a grande empresa, que pertence às corporações Vale e BHP Billiton, a depressão e a falta de um amanhã promissor, pois não se voltará a entrar no mar em um mês ou um ano, como afirma Talena, que não pode mais surfar.[5]

Marcha pela cidade de Colatina[editar]
Marcha na cidade de Colatina-ES.

Marcha na cidade de Colatina (ES) dialogou com os moradores a necessidade de punição e reparação do maior crime ambiental da década.

Corte de trilhos na comunidade de Mascarenhas[editar]
Corte de trilhos da Vale na comunidade de Mascarenhas

No final do primeiro dia da marcha pela bacia do rio Doce, manifestantes trancaram linha férrea da Vale por três horas.

A Samarco vai ter que pagar”, foram os primeiros gritos da ocupação da ferrovia da Vale em Mascarenhas, distrito de Baixo Guandu (ES), pelos atingidos em marcha da bacia do rio Doce. Por volta das 20 horas dessa segunda-feira (31), aproximadamente 300 pessoas impediram a passagem dos trens que transportam ininterruptamente minério de ferro do interior de Minas Gerais para o Porto de Tubarão, em Vitória (ES).

Os moradores de Mascarenhas já haviam interditado a ferrovia três vezes, devido a negligência da Samarco (Vale/BHP Billiton) em relação aos impactos da barragem de Fundão no distrito. Anteriormente, grande parte da população vivia da pesca do rio Doce, que atualmente está totalmente paralisada.

A atingida e militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Regiane, conta que os trancamentos ocorreram como últimos recursos dos moradores. “Tivemos que realizar a manifestação porque a Samarco negava assumir os impactos que ela causou na vida do povo daqui”, afirmou.

De acordo com Regiane, grande parte dos atingidos foi cadastrada para receber os cartões da Samarco somente depois das manifestações. Ainda assim, a maioria das mulheres pescadoras foi excluída do ressarcimento financeiro da mineradora.

Em decorrência dos trancamentos e da organização política dos atingidos na região, 13 atingidos pelo crime da Samarco (Vale/BHP Billiton) e militantes do MAB estão sendo processados pela Vale. As intimações chegaram justamente após de atos ou manifestações reivindicando os direitos negados pela mineradora.

De acordo com o militante do MAB, Pablo Dias, esse tratamento faz parte do modus operanti das mineradoras. “Uma empresa que foi corresponsável pela morte de 19 pessoas e pelo impacto social, econômico e cultural na vida de outras milhares, ainda tem a coragem de processar as suas vítimas”, indignou-se.

Os atingidos desocuparam a ferrovia por volta das 23 horas e seguiram em direção ao centro da cidade de Baixo Guandu.

#1AnoDeLamaELuta

A manifestação na linha de trem da Vale fez parte da marcha dos atingidos pelo rompimento da barragem de rejeitos de Fundão, de propriedade da Samarco (Vale/BHP Billiton). Na véspera de completar um ano, a lama afetou milhares de pessoas ao longo da bacia do rio Doce. A marcha seguirá o caminho contrário da destruição, de Regência (ES) à Mariana (MG), entre os dias 31 de outubro e 2 de novembro.

Dia segundo - Terça 01/11/16[editar]

Resplendor-MG - Um rio morto que assombra a cidade[editar]
Maria Julia moradora de Resplendor-MG

Resplendor (MG) já havia sido atingida pela Vale com a hidrelétrica de Aimorés, e agora sua população é obrigada a conviver com a morte do Rio Doce bem no meio da cidade.

Você via, era um lençol de peixe morto bem no meio da cidade, por onde o rio passa. Foi preciso um caminhão pra tirar os peixes”, lembra-se Maria Julia Moreira, 68 anos, moradora de Resplendor. O município é vítima da Samarco (Vale/BHP Billiton), desde o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG).

O crime aconteceu em 5 de novembro de 2015, provocando a maior tragédia socioambiental do Brasil e contaminando mais de 640km de cursos d’água. A lama de rejeitos desceu o Rio Doce e outros da região, atingindo 41 cidades entre Minas Gerais e Espírito Santo. Autoridades afirmam que foi retirada das águas mais de 14 toneladas de peixes mortos.

Mesmo após um ano da tragédia, Dona Maria Julia ainda se assombra com os dias seguintes ao rompimento da barragem da Samarco. Ela conta que o ar foi contaminado com um forte odor de peixe morte e o próprio rejeito de minério, tornando insustentável a permanência dos moradores no entorno do rio. Por 15 dias os moradores de Resplendor ficaram sem abastecimento de água, tendo a Samarco se eximido de sua responsabilidade.

O militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Josimar Silvino, conta que a Samarco deveria trazer água de fora, que não estivesse contaminada como as água do rio Doce, para o abastecimento geral do município. “A Samarco deveria trazer água de fora para o sistema de tratamento, que depois iria abastecer a cidade, mas eles estavam usando água do Rio Doce”, explica.

Indignada, a população desligou e botou fogo na bomba na beira do rio Doce, para inibir que a empresa continuasse contaminando os cidadãos de Resplendor. Hoje é utilizada a água do rio Barroso, livre de minério, mas Josimar aponta que frequentemente a Samarco é descoberta pegando água contaminada.

Município turístico, Resplendor sofre de diversas formas com a chegada da lama de rejeitos. “Cidade que vive da pesca e turismo, tem duas belas pontes, agora vive no descaso da Samarco. É um grande desrespeito com a população”, acusa o militante.

Junto com os municípios de Aimorés e Itueta, o município já é atingido pela usina hidrelétrica de Aimorés, da Vale. “O nosso rio era um rio rico, juntou a Vale acabou com um ‘cado’, veio a Samarco e acabou com o resto. O nosso rio é morto”, denuncia Dona Maria Júlia.

#1AnoDeLamaELuta

Dona Maria Julia e Josimar estão participando da marcha dos atingidos pela Samarco (Vale/BHP Billiton), que percorrem o caminho contrário da lama de Fundão, de Regência (ES) à Mariana (MG), entre os dias 31 de outubro e 2 de novembro.[6]

Governador Valadares-MG - Atingidos realizam Audiência Pública com CDH da Câmara Federal[editar]
Atingidos realizam Audiência Pública em Governador Valadares
Efeitos do crime da Samarco (Vale/BHP Billiton) na vida da população urbana, ribeirinha e indígena são debatidos.

5 de novembro marca um ano de lama, de luta e de impunidade. As empresas são criminosas e assassinas, e apesar das muitas provas ninguém está preso, não pagaram pelo que cometeram”, denuncia Ellen Dutra de Oliveira, do MAB, atingida de Cachoeira Escura pelo crime da Samarco (Vale/BHP Billiton).

A “Audiência Pública – Os efeitos do crime na vida do povo após um ano, especialmente para os povos indígenas”, realizada no município de Governador Valadares (MG) pela Comissão de Direitos Humanos e Excluídos da Câmara Federal, é resultado da articulação do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), em denúncia ao crime e à impunidade do crime das mineradoras.

Compareceram ao evento a prefeita de Governador Valadares, Elisa Costa, membros da promotoria de justiça, a Defensoria Pública, representante dos povos Krenak e Tupiniquim, além de um indígena do Equador.

Giovani Krenak, 32 anos, explica que o crime da Samarco (Vale/BHP Billiton) afetou a população indígena não apenas econômica e culturalmente, mas também foi uma forte perda espiritual. “A gente tem o rio como algo vivo, algo que tem vida e com a lama os mais velhos orientam a gente a não entrar e não chegar perto do rio, porque o rio está morto”, afirma.

Ele conta que o povo Krenak sempre foi acolhido pelo rio, era algo que mantinha o espírito do povo vivo e lamenta por não ter tido a oportunidade de lutar por isso. A aldeia Krenak fica a cerca de 120 km de Governador Valadares, onde vivem 600 pessoas em 120 famílias.

Atingidos organizam Audiência Pública em Gov. Valadares

A Audiência debateu a necessidade de garantia dos diretos dos atingidos pela lama de resíduos e a reparação das regiões e biomas afetados. O procurador regional do Ministério Público Federal, Edmundo Antônio Dias Netto, acompanha a Ação Civil Pública sobre o tema que corre no judiciário e afirma que a responsabilidade pela retomada da vida da Bacia do Rio Doce é de responsabilidade tanto das empresas Samarco, Vale e BHP Billiton como também de entes públicos “que exerceram mal a fiscalização desse empreendimento de mineração ou licenciaram sem quaisquer elementos técnicos a atividade minerária da Barragem de Fundão”.

O espaço cedido pelas irmãs Ana e Andreia, do Colégio Franciscano Imaculada Conceição teve suas cadeiras ocupadas por atingidos e atingidas de toda a Bacia do Rio Doce, que mostraram à mesa que a organização é ponto fundamental para a conquista de direitos. “A situação dos atingidos é a mesma de um ano atrás, a pouca conquista que tivemos só foi possível pela organização e luta dos atingidos. Convocamos toda a população para estar na luta, não vamos baixar a cabeça”, reforça Ellen.

A audiência é parte das atividades da Marcha 1 Ano de Lama E Luta, realizada pelo MAB entre os dias 31 de outubro e 2 de novembro, como marco do aniversário de um ano do crime da Samarco (Vale/BHP Billiton).[7]

Krenak: Samarco matou Watu[editar]
Povo Krenak presente na Audiência Pública dos Atingidos em Gov. Valadares

Geovani Krenak fala da morte do rio Doce.

No segundo dia da Marcha “1 Ano de Lama e Luta”, o grupo de atingidos chega a Governador Valadares (MG), maior cidade atingida pela lama com rejeitos da Samarco (Vale/ BHP) , e região onde também foram impactadas tribos indígenas, como a Krenak. O representante da aldeia, Geovani Krenak, fala sobre a influência que o rompimento da barragem do Fundão, em Mariana (MG), teve sobre o cotidiano da aldeia e sobre a morte do Watu, nome utilizado pela tribo para o Rio Doce.

Nosso povo não sabia o que tava acontecendo, a gente via noticiários e a gente não sabia que a lama chegaria muito longe, do local do rompimento até nossa aldeia. Os peixes foram ficando tontos, muito peixe, e eles começaram a morrer. Nós elaboramos um documento exigindo da empresa uma providência, e também água”, narrou Giovane. Estas medidas não foram tomadas pela empresa, deixando a tribo, já criminalizada na sua luta pela manutenção do meio ambiente, desamparada. Geovani comenta também sobre a não aceitação da luta dos Krenak, e como a falta do recurso hídrico para diversos municípios mudaram esta visão.

A tribo Krenak não foi a única afetada, os indígenas Tupiniquins também tiveram seu cotidiano alterado, e a Samarco (Vale/ BHP) não tomou providências para qualquer tipo de reparação em relação a esta população, que já é marginalizada em nosso país, desconsiderando a importância histórica e cultural desta parcela de brasileiros e brasileiras. O cacique Antônio Carlos, da tribo Tupiniquim, também destaca a falta de assistência das empresas e o descaso com seu povo, contando que também foram atingidos, e que merecem reparação pelo que foi feito, desestabilizando a aldeia, que dependia exclusivamente do rio para sua sobrevivência.

A própria instalação da linha férrea, na década de 80, levou a tribo Krenak a conflitos com a Vale. “Nós não somos contra o progresso. Somos contra o progresso que mata”, fala o representante dos Krenak a respeito do trabalho da Vale na região. Geovani também destaca que “a morte do Rio é a morte de algo vivo, e quando um parente morre, ele não ressuscita, e com o Rio é a mesma coisa”, quando questionado se acredita no renascimento do fluvial. Os {{Povo Indígena Krenak | Krenak]] não podem mais fazer seu ritual espiritual no Watu, o que tem causado problemas psicossociais nos indígenas da aldeia.

A população indígena é afetada de várias formas no Brasil, seja pela disputa de terras e pelo preconceito com as etnias, como também pela falta de suporte do governo. Somado a isso, o crime que motivou esta Marcha, que matou Watu, um ente espiritual dos Krenak e de outras populações indígenas, e a falta de diálogo entre a histórica população autenticamente brasileira e as empresas de mineração.

O porta-voz dos Krenak fala da importância da Marcha e do MAB para a aldeia, relembrando quando a tribo foi protestar na linha férrea, e o Movimento levou mantimentos, e se tornou parceira da aldeia, exatamente por estarem passando pela mesma situação de reconstrução da vida após o crime que afetou mais de 800 quilômetros e dezenas de milhares de pessoas.[8]

Cachoeira Escura-MG - O direito à água[editar]

A falta de qualidade no recurso hídrico ainda é um dos principais problemas das cidades atingidas pela lama da Samarco.

Encontrar vários galões de água espalhados pela casa já se tornou uma rotina na vida de milhares de moradores ao longo da Bacia do Rio Doce. Atingidos pela lama da mineradora Samarco – de propriedade da Vale e da BHP Billiton –, que invadiu o rio e seus afluentes após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), muitos ainda sofrem com a falta de abastecimento; além de já não confiarem mais na água vinda do fornecimento público.

Um ano após o desastre socioambiental, essa ainda é a realidade do distrito de Cachoeira Escura, em Belo Oriente – na região do Vale do Rio Doce –, distante cerca de 270 km da capital mineira, Belo Horizonte. Os cerca de 12 mil habitantes do povoado sofrem com problemas de escassez e contaminação dos recursos hídricos, embora a interrupção do fornecimento tenha ocorrido apenas por um curto período, em novembro do ano passado.

O temor dos moradores em relação à contaminação é constatado em laudos oficiais. Em agosto deste ano, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), o Ministério Público Federal (MPF) e a Defensoria Pública da União divulgaram um laudo técnico sobre a qualidade da água tratada do Rio Doce e que é distribuída na cidade de Governador Valadares, distante cerca de 70 km de Belo Oriente.

De acordo com o documento, que apresenta análises de coletas realizadas em julho deste ano, a Central de Apoio Técnico (Ceat) concluiu que a água que chega no município não é potável, ou seja, não está própria para o consumo da população, uma vez que apresenta nível elevado de alumínio e turbidez acima do limite estabelecido pelo Ministério da Saúde, o que pode causar doenças.

"Foi constatado que, a partir de valores superiores ou iguais a 0,1 mg/L de alumínio na água produzida para abastecimento público, o risco de demência e declínio cognitivo aumenta. Ademais, inúmeros estudos demonstram que a presença do alumínio na água, em concentrações superiores ao padrão de potabilidade, pode contribuir para o aparecimento de algumas doenças no organismo humano, tais como a osteoporose e doenças neurológicas e alterações neurocomportamentais, incluindo a encefalopatia, esclerose lateral amiotrófica, doença de Parkinson, demência dialítica e mal de Alzheimer", aponta o texto.

"Nossa população não confia nessa água. Mas a Samarco e a Vale simplesmente ignoram o fato e insistem que a água tem qualidade. Aqui em Cachoeira Escura, nós temos a mesma água de lá [Governador Valadares]. Um pouco pior, porque aqui nós estamos mais próximos da barragem e nosso tratamento é bem mais precário do que o deles, apesar de ser da mesma rede que é o Saae [Serviço de Abastecimento de Água e Esgoto de Belo Oriente], mas o de lá é bem mais equipado", relata a militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Ellen Dutra de Oliveira, que é moradora da região.

Até o fechamento da matéria, a reportagem não obteve retorno da Samarco quanto aos problemas relatados pela população local.

São mais de 20 galões de água distribuídos pelo quintal da casa de Yrani Salviana Venuto, 34 anos, onde também moram as três irmãs, além de filhos, sobrinhos e sua mãe. Localizada na parte alta da cidade, a residência fica a 40 minutos da bica mais próxima, na qual é possível captar água gratuitamente.

Atualmente, nenhuma das irmãs usa a água encanada para consumo próprio. O que chega pelos canos serve apenas para lavar roupas, louças e utensílios da casa.

Ajudante de cozinha, Yrani diz que várias pessoas da família já se sentiram mal após consumir o que ela chama de "água da Samarco". Vômito, diarreia, dor de estômago, tontura e alergia na pele são alguns dos sintomas levantados por ela. O maior medo agora é pela saúde dos filhos e sobrinhos que bebem a água encanada na escola. "Tem uma moça que levou o filho no médico, que disse que era para ela dar uns dois litros de água mineral para ele levar para a escola. E que se ela der água [encanada] pra ele, ele vai morrer", conta.

Yrani paga ao vizinho uma parte de sua conta de luz para captar água de uma fonte privada. Já a irmã, Yvanildes Salviano Venuto Teotônio, 39 anos, dispõe de um carro e consegue mais facilmente descer o morro e encher alguns galões de água para consumo: são cerca de seis por semana.

"Para quem está a pé são cerca de duas horas. Tem dia que tem muita água, [tem dia] que a água é pouca. Gasta muito tempo para subir esse morro, que é muito alto. De carro dá uns 30 minutos para subir, mais uma hora para pegar a água", conta. Além disso, há vizinhos que não têm condições de se locomover e chegam a pagar de R$ 15 a R$ 20, por semana, para quem tem transporte e pode buscar água.

O trabalho cotidiano e as fontes de renda dos agricultores, ribeirinhos, pescadores e indígenas que vivem ao longo de toda a extensão do Rio Doce foram atingidos. Nesse cenário de comprometimento da qualidade da água e do solo, "propriedades camponesas, dependentes da criação de gado e dos rios próximos para sua reprodução social foram diretamente afetadas". Isso é o que aponta o relatório "Antes fosse mais leve a carga: Avaliação dos aspectos econômicos, políticos e sociais do desastre da Samarco/Vale/BHP em Mariana (MG)", do Grupo Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade (PoEMAS).

Este um dos focos de denúncia de moradores e militantes do MAB, que, ao longo do último ano, vêm reivindicando que a Samarco reconheça pescadores e pequenos produtores da região como atingidos, uma vez que a lama que chegou no distrito mineiro também impôs a perda do trabalho de subsistência.

Silvana Rodrigues do Nascimento, 49 anos, é uma das atingidas no distrito. Com uma relação antiga com o Rio Doce, as lembranças da vida que ela um dia teve são substituídas, hoje, pela lama visível todos os dias no quintal de sua casa.

Do rio, ela tirava boa parte da renda e do alimento da família, pescando para o próprio consumo ou vendendo o excedente. Agora, conta ela, já não é possível nada disso. "A renda caiu demais na casa. Não tem mais recurso para manter a casa igual mantinha", diz. Ela não é reconhecida pela Samarco como uma atingida.

Depois de um cavalo e alguns porcos e galinhas morrerem após o consumo da água do rio, Silvana teve certeza que já não era mais possível beber da mesma fonte que a alimentou durante boa parte de sua vida. Atualmente, o abastecimento de água vem de um caminhão pipa que passa uma vez por semana em sua residência. "Não tem recurso [financeiro] para ter uma água limpa para tomar em casa. O caminhão pipa é que coloca água aqui. Nós temos que economizar muito, porque acaba antes [do caminhão voltar]", afirma.

Quem também retira o sustento das margens do Rio Doce é Sebastião Cirilo de Souza, 72 anos. "A idade que eu tenho é a idade que eu estou na beira deste rio aqui", brinca.

Há anos, ele extrai a areia das imediações para vender, além de, vez ou outra, pescar. "Quando eu tinha 17 anos eu conseguia pescar peixe neste rio, de 18 a 19 quilos. A sobrevivência que a gente tinha, era do que a gente tirava daqui", lembra.

Hoje, a extração de areia também está prejudicada. A venda, diz ele, "diminuiu muito por causa do barro que desceu" do rio após o rompimento.

Em outubro deste ano, a Prefeitura de Belo Oriente informou, em sua página na internet, que firmou um acordo com a mineradora Samarco para melhorar o abastecimento de água na cidade. A empresa realiza a escavação de um poço artesiano em um local próximo à Estação de Tratamento de Água (ETA) de Cachoeira Escura.

"A previsão é de [que] o poço tenha cerca de 150 metros de profundidade e possa jorrar algo em torno de 10 mil litros de água/hora, ajudando a suprir a demanda. Outro fato ressaltado é que água extraída debaixo de rochas é de excelente qualidade", diz o texto publicado.

Ipatinga-MG - Jovens organizam apoio e aula publica à Marcha[editar]
Em Ipatinga-MG os jovens recebem a Caravana
Em Ipatinga (MG), no Vale do Aço, jovens organizam apoio à Marcha e dão show de animação e luta.

“A partir das atividades do MAB estamos vendo que os jovens estão se posicionando, querendo se mobilizar e entrar na luta", afirma militante do Levante Popular da Juventude.

Em Ipatinga, o protagonismo foi a juventude na recepção da marcha “1 Ano de Lama e Luta”, contra o crime da Samarco (Vale/BHP Billiton). Foi de responsabilidade do movimento Levante Popular da Juventude a preparação do espaço e alimentação para a chegada e estadia dos atingidos que vêm em marcha pela Bacia do Rio Doce desde Regência, no dia 31 de outubro. Já na chegada, o acolhimento de jovens de diversas escolas municipais e estaduais da cidade aos atingidos e atingidas foi caloroso, com músicas e muita animação.

Uma articulação do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) com o Levante Popular da Juventude, o Sindicatos dos Educadores de Minas Gerais (SindUTE) realizou por cerca de duas semanas o diálogo com jovens da região. Foram feitos aulões públicos nas escolas em denúncia ao crime do rompimento da Barragem de Fundão no dia 5 de novembro de 2015, alcançando cerca de 7 mil estudantes.

A partir das atividades do MAB estamos vendo que os jovens estão se posicionando, querendo se mobilizar e entrar na luta. Nossa relação com a MAB aqui é muito boa, um apoiando o outro, e isso têm sido muito importante”, conta a militante do Levante, Graziele Domingues de Sousa, de 19 anos.

No ginásio municipal 7 de Outubro, estavam presentes jovens de escolas estaduais e municipais, educadores do SindUTE e militantes de movimentos sociais. Mas foi um convidado especial que animou o grupo com sua arte e exemplo de resistência, o cantor Flávio Renegado. Ele acredita na juventude e enxerga que assim como no movimento das mais de mil escolas ocupadas no Brasil, é fundamental sua participação na Marcha. “Quando começamos a refletir o que é ser livre é que percebemos o quanto somos explorados. Vivemos em um país onde o capital sempre explorou a população e vai continua se não se o povo não se organizar e dar um basta”, afirma o artista.

Ele apoia a luta dos atingidos, e afirma que como a Samarco tirou a possibilidade de sobrevivência e liberdade das famílias atingidas, o mesmo acontece todos os dias com os trabalhadores no país e no mundo. “E essa marcha se levanta pra dizer Não, pra dizer Basta, pra lutar pelos direitos dessa população atingida”, reafirma Renegado em ato político realizado no local.

Joceli Andrioli, da coordenação do MAB, explica que o crime da Samarco (Vale/BHP Billiton) está diretamente ligado à ganância do capital que busca obter lucro acima de tudo e de todos, ligado a uma forma de organizar a sociedade que permite que poucas empresas organizem a sociedade como bem entendem, revertendo o destino no Brasil para colônia e não uma nação.

Esse é o maior crime socioambiental do mundo, já está comprovado pela Policia Civil e Ministério Público, e não tem nenhum empresário preso, está claro que a saída só virá da participação popular. Por isso realizamos a Marcha e o encontro em Mariana, pra apontar a importância de estar organizado, de cabeça erguida para construir a sociedade que a gente deseja”, conclui o militante do MAB.[10]

Dia terceiro, quarta 02/11/2016[editar]

Hidroelétrica Candonga: a próxima tragédia anunciada[editar]
Drenagem de lama da represa Candonga (Risoleta Neves)

A hidrelétrica, que reteve 10 milhões de metros cúbicos de lama da Samarco (Vale/BHP Billiton), corre o risco de se romper a qualquer momento.

No terceiro dia da Marcha “1 Ano de Lama e Luta”, nesta quarta-feira (3), os atingidos saíram de Ipatinga (MG) para Rio Doce (MG), passando pela Usina Hidrelétrica Candonga, que “é um ‘símbolo internacional de direitos humanos’, de acordo com suas donas, a Vale e a CEMIG”, afirma Thiago Alves, da coordenação do MAB de Minas Gerais.

Candonga é uma barragem que gerou a expulsão de comunidades, destruição ambiental em grande escala e ainda mantêm um passivo social com a população local. O militante do MAB relata que o empreendimento é responsável por um histórico de violação de direitos humanos e de violência contra a população que vivia na região, alagada para a construção da barragem, utilizando inclusive o aparato policial.

Desde sua construção, a barragem apresenta problemas. Caetano dos Santos, um dos moradores da região alagada, desapareceu durante as obras. O reassentamento foi feito de forma displicente, e muitas pessoas, como garimpeiros do município de Rio Doce, não receberam nenhum tipo de indenização. Até hoje, 12 anos após o licenciamento que autorizou o funcionamento da hidrelétrica, muitos ainda lutam pelos seus direitos.

Risco iminente
A barragem agora apresenta novo risco de rompimento, e está vazia”, afirma Thiago. A Vale adquiriu um terreno de 150 hectares ao lado do paredão da hidrelétrica, não se sabe ainda se para a criação de nova barragem ou com a intenção de outros projetos. Candonga segurou 10 milhões de metros cúbicos de rejeitos na ocasião do rompimento que faz 1 ano e que motiva a Marcha.

Atingidos visitam a represa de Candonga

Nesta parada, os atingidos ficaram especialmente impressionados com a dimensão da barragem, ou melhor, chocados com um espaço que, segundo todos eles, será um novo desastre como o que lhes tirou de seus cotidianos e os levou à Marcha. O pescador Gilmar Belém de Jesus, 46, um dos atingidos do Espírito Santo que não foi reconhecido pela Samarco e não recebe nenhum auxílio da empresa, diz que “vai ser mais um crime, o ser humano só sabe destruir”.

A pescadora Eliane Valque, 47, conta suas impressões sobre a hidrelétrica de Candonga. “Para mim ela é muito famosa. Eu tenho medo dela. Eu tenho medo de ser atingida novamente lá na minha região (Espírito Santo)”.

Weste de Souza Martins, 23, que após ser atingido pela barragem do Fundão em sua região de Cachoeira Escura (MG), conta que é muito emocionante ver o Rio Doce e a barragem. “A água mesmo parece que evaporou. É só lama, só rejeito. É tudo uma vida que foi pra lama, que a Samarco criou. Eu estou na luta e não vou parar até a Vale, a Samarco e BHP tomarem as devidas providências.

Os atingidos pela barragem de rejeitos que destruiu a bacia do rio Doce se mostraram indignados em ver o rio, e especialmente com a hidrelétrica de Candonga, pois trouxe o sentimento de medo de uma nova tragédia. Com o período de chuvas se aproximando, a própria empresa se preocupa com as consequências de um possível rompimento.

Lama seca na represa de Candonga

Estes novos militantes do MAB se emocionaram com a visão de algo similar ao que passaram há 1 ano. Foram ouvidas histórias, relatos e muita preocupação com o futuro do rio Doce e do mar. Os atingidos têm medo de sofrer novamente com a negligência da empresa caso esta barragem não comporte a água esperada neste período.

Para os pescadores, como Eliane, não há mais peixe, e para jovens, como Wesle, somente um futuro cor de morte, igual as margens do Rio Doce. A Vale e BHP agem, via Samarco, de forma a destruir mais ecossistemas de Minas Gerais, destruindo e inundando cidades para criação de barragens e espaços que comportem a extração de minério de ferro, produto que é exportado quase completamente.

A hidrelétrica de Candonga representa um risco para os já atingidos e para a população que mora perto da área, pois seu futuro, se depender da Vale, é ingressar as fileiras do MAB em suas marchas. As mineradoras não se importaram com vidas há um ano e dificilmente se importarão caso novo rompimento ocorra.[11]

Uma história repetida
Por duas vezes, Vale é responsável por impactos na vida de moradores no município de Rio Doce-MG.

A Vale invadiu a vida do casal Maria Cristina Alves e Natanael dos Santos por dois vezes. A primeira, em 2006, os arrancou de sua casa. A segunda, em 2015, espalhou lama sobre seu trabalho, o Rio Doce.[12]

Leia a matéria completa aqui.

Barra Longa-MG - Marcha, Atividade Cultural e Plenária na praça[editar]
Marcha dos atingidos na comunidade de Barra Longa-MG

A marcha “1 Ano de Lama e Luta”, em denúncia ao crime da Samarco (Vale/BHP Billiton) passou pelo município de Barra Longa (MG), no dia 02 de novembro. Antes cartão postal do crime de derramamento de lama tóxica por toda a bacia do Rio Doce, o município agora é exemplo de como é possível disfarçar um crime, literalmente jogando a lama “por baixo do tapete”.

O rompimento da Barragem de Fundão em 5 de novembro de 2015, em Mariana, colocou a mineradora Samarco (Vale/BHP Billiton) nas manchetes dos principais jornais do Brasil e do mundo. As imagens de Barra Longa e do distrito de Bento Rodrigues completamente tomados pela lama de resíduos de minério chocaram os quatro cantos.

Foram atingidas mais de 1 milhão de pessoas, que sofrem com problemas de saúde, falta de água e a perda do rio como fonte de renda, além de inúmeras perdas ambientas. Com sua imagem manchada pelo que foi um dos maiores desastres socioambientais do mundo, as preocupações da mineradora se voltaram para a reconstrução, mas não dos danos e sim de sua figura pública. Para isso, a Samarco (Vale/BHP Billiton) uso de táticas de manipulação da sociedade e principalmente da população atingida.

Durante os seus mais de 25 anos de luta, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) sempre teve de lidar com ações como essas por parte da empresa. Segundo Antônio Claret Fernandes, militante do MAB na região, as principais práticas para desconstruir a organização do povo por seus direitos são: dividir a população, maquiar as violações e cooptar lideranças e referências.[13]

Maquiagem - Samarco usa táticas de manipulação[editar]

Samarco (Vale/BHP Billiton) usa a cidade de Barra Longa para reparar não os danos causados, mas sua imagem pública.

No dia 30 de outubro deste ano, um ano após a tragédia, a empresa inaugurou a nova praça do município de Barra Longa, devolvendo à população da cidade o seu direito ao espaço público, antes tomado pela lama. Mas por trás do que parece a solução do problema, a Samarco (Vale/BHP Billiton) tem outras intenções.

A Samarco está preocupada apenas com a sua imagem e não com os atingidos. Aceleraram o processo de reforma da praça, pintaram todas as fachadas da rua principal sabendo que a marcha ia passar por ali, eles fazem isso justamente para passar a mensagem de que são bonzinhos e estão resolvendo. Mas a maquiagem é clara e é uma farsa, eles pintaram a grama de verde, borrifaram um produto”, denuncia Thiago Alves, da coordenação do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) em Minas Gerais.

A praça de Barra Longa foi tomada pela lama, que chegou a mais de dois metros de altura nas casas das ruas mais próximas ao rio. Após a reforma, as casas todas pintadas, as ruas foram lavadas e o chão da praça todo foi trocado, para sumir com os vestígios do crime. A única casa da praça que não foi pintada está coberta com um tapume, garantindo que a lama se mantenha escondida.

Claret explica que esse tipo de ação causa um deslumbramento aos moradores da cidade e àqueles que viram a situação da cidade antes da reforma. “Quem chega e não sabe das questões pensa que as coisas estão muito boas. Mas quando começa a ver pra além da estética da praça, casas e ruas percebe que tem uma série de problemas, os traumas dos moradores, percebe que os direitos dos atingidos não foram garantidos. Essa é uma tática da empresa para impressionar”, reflete.[13]

Divisão[editar]

Thiago conta que em Barra longa, a divisão da população foi a primeira arma da empresa. “Um grupo criado pela Samarco passou a fazer parte da vida da comunidade, estabelecendo relação dia-a-dia com os moradores, e assim se criou um grupo da própria população que hoje trabalha a serviço da empresa”, reata.

O primeiro passo da Samarco foi fazer a entrega desigual dos cartões com ajuda financeira mensal, criando um clima de divisão na cidade. Esse clima de fortaleceu com o debate de indenização imediata, quando a mineradora montou um grupo seleto para o debate, sem participação do movimento ou nem mesmo o Comitê de Atingidos do município. A partir daí, Thiago conta que a Samarco passou a construir um discurso que deslegitima o MAB, afirmando que o movimento estava atrasando o pagamento das indenizações e outras mentiras.[13]

Cooptação[editar]

Próximo à Barra Longa, no distrito Cacheira Escura, a lama trouxe problemas que perduram até hoje, problemas invisíveis. O abastecimento de água na cidade é realizado no Rio Doce mesmo após um ano da tragédia, afetando a saúde da população que apresenta escoriações na pele e diversos problemas de saúde. Na comunidade, a Samarco não consegue maquiar as provas do crime, por isso escolheu pela estratégia da cooptação, ou seja, trazer lideranças para o seu lado para buscar informações e convencer a população de sua inocência.

A gente vê que muita gente foi comprada com o cartão, que sabemos que nunca pescou ou que não depende do rio para sobreviver. Receberam o cartão simplesmente para sair do movimento, para entregar informações nossas, pra ajudar a convencer e cooptar outras pessoas”, conta Ellen Dutra, atingida de Cachoeira Escura e militante do MAB.

A moradora afirma que por mais que pareça a coisa certa acreditar na empresa, a realidade se mostra diferente. “A Samarco é criminosa, ela não tem palavra. Tanto é que depois de um ano não foi nada resolvido, o rio está do mesmo jeito, as famílias que dependiam do rio pra sobreviver estão desamparadas, algumas têm no máximo tem esse cartão que não supre as necessidades mais básicas. Não podemos acreditar na empresa”, determina Ellen.[13]

Organizar para os direitos conquistar[editar]

O que os militantes garantem é que só é possível obter conquistas a partir da luta popular. Apesar das investidas da empresa, o movimento deve continuar com seu trabalho de organização dos atingidos, com convicção de que faz a coisa certa.

O que a empresa dá é uma pequena migalha e o prejuízo a longo prazo vai ser muito maior. A gente continua a luta e o diálogo com os atingidos com a consciência tranquila, sabendo que lutamos pela coisa certa”, anima-se Thiago.[13]

Chegada e Encontro em Mariana-MG[editar]
Encontro dos atingidos em Mariana

Após um ano do rompimento de Fundão, atingidos realizam encontro em Mariana. Evento reúne 800 pessoas impactadas na bacia do rio Doce pelos rejeitos de minério da Samarco.

Entre os dias 3 e 5 de novembro, aproximadamente 800 pessoas do Espírito Santo e Minas Gerais se encontram em Mariana (MG) para debater o futuro da bacia do rio Doce. Os participantes são atingidos pelo rompimento da barragem de rejeitos da Samarco (Vale/BHP Billiton), ocorrido no dia 5 de novembro de 2015.

A atividade, que ocorrerá na Arena Mariana, localizada no centro da cidade, também contará com a presença de integrantes da Arquidiocese de Mariana, da Plataforma Operária e Camponesa para Energia, Rede de Médicos e Médicas Populares, Conselho Nacional de Direitos Humanos, Ministério Público Federal e Ministério Público Estado de Minas Gerais, além de sindicatos e movimentos sociais.

Homenagem aos mortos pela barragem do Fundão

Na noite do dia 3 de novembro, ocorrerão apresentações da banda Falamansa e do cantor Flávio Renegado. Também está prevista a análise de integrantes do Movimento Humanos Direitos, grupo formado por artistas e intelectuais do Rio de Janeiro.

Já no último dia do encontro, dia 5 de novembro, atingidos farão uma caminhada em Bento Rodrigues, para celebrar a memória das 19 pessoas mortas pelos rejeitos de minério de ferro da barragem de Fundão.

Local: Arena Mariana Mariana (MG).
Data: de 2 a 5 de novembro.
Contato: Neudicléia – (11) 98367 8184/ Eloá – (31) 99523 1731

Encontro/Seminário em Mariana-MG[editar]

Dias 3 e 4/11. Durante estes dois dias será feito um amplo debate sobre as verdadeiras causas do crime, a situação de tratamento aos atingidos, ouvindo especialistas, parceiros, apoiadores e os atingidos.[3]

Encontro em Mariana reúne 800 atingidos no aniversário do crime da Samarco[editar]

Mesa no ato político de abertura do encontro em Mariana

Encontro é organizado pelo MAB e acontece na Arena Mariana.

Começou nesta quinta (3), em Mariana (MG), o Encontro de Atingidos da Bacia do Rio Doce, que reúne 800 pessoas de diversas comunidades afetadas pela lama da Samarco (Vale-BHP Billiton). O encontro faz parte da jornada que marca um ano do rompimento da barragem do Fundão, ocorrido no dia 5 de novembro de 2015 no distrito marianense de Bento Rodrigues.

O evento, organizado pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), também conta com a presença de lideranças políticas, representantes de movimentos populares da América Latina, artistas e religiosos. A programação segue até sexta (4) e, no sábado (5), uma caminhada em Bento Rodrigues encerrará as atividades.

“Diante desse quadro de desolação e de perda de direitos irreparáveis, é extremamente importante vivenciar a solidariedade desse encontro. Isso nos encoraja a prosseguir nessa grande luta para salvar a Bacia do Rio Doce”, afirmou Don Geraldo Lyrio na mesa de abertura.

Realidade dos atingidos
O principal objetivo do encontro é discutir coletivamente a situação dos atingidos um ano após o rompimento e denunciar a negação de seus direitos pela mineradora. Dentre os relatos apresentados, a negação de direitos e o descaso da Samarco são as reclamações mais recorrentes.

O morador de Bento Rodrigues, Marquinhos Muniz, conta que ainda aguarda ver seus direitos reconhecidos. Ele perdeu tudo e, agora, a Samarco planeja construir um dique na área, o S4, que vai cobrir mais um pedaço da sua propriedade. “Sou contra esse dique porque a Samarco está resolvendo o problema dela e não dos atingidos, porque é para continuar jogando rejeito lá. Soterrar Bento é uma maneira deles apagarem a cena do crime”, comenta o atingido.

Já o problema exposto por Regiane Soares, moradora de Mascarenhas, distrito de Baixo Guandu (ES), é que a economia de todo o povoado girava em torno da pesca. Apesar de grande parte da população ter recebido o cartão com uma indenização mensal, ela questiona o machismo da empresa ao ignorar a situação das mulheres. “Nós, mulheres, não fomos reconhecidas como atingidas. O Rio não era só a nossa fonte de renda ou a nossa área de lazer, era tudo para nós”, conta emocionada.[14]

Programação, Mesas Debate e Atividades[editar]

Dia 03 de novembro de 2016[editar]
Ato político de abertura[editar]

Entidades participantes:

Mesa I - A voz dos atingidos[editar]

Depoimentos a partir da visão dos atingidos e atingidas desde o ocorrido (crime da lama) e a situação atual.

Participaram representantes das comunidades de:

Mesa II - Análise das entidades dos trabalhadores da Mineração, das categorias da Plataforma Operária e Camponesa para Energia e do MAB sobre o crime[editar]
Veja também: Análise sobre trabalhadores da mineração, atingidos e contexto político - 1 Ano de Lama e Luta

Na quinta-feira 3 de novembro de 2016, no segundo dia do Encontro dos Atingidos “1 Ano de Lama e Luta”, ocorreu uma mesa de diálogo cujo tema foi a “Análise das Entidades dos trabalhadores da Mineração, das categorias da Plataforma Operária e Camponesa para Energia e do MAB sobre o crime”. Participaram da atividade sindicatos e instituições ligadas à mineração e energia, institutos de direitos humanos e também representantes do próprio Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).

Na mesa se discutiu a questão do crime e como o Estado trabalha para as corporações e não para o bem estar social. Temas como Petrobras, o golpe e as consequências do rompimento de barragens na vida das mulheres foram abordados pelos participantes da mesa. Letícia Oliveira, integrante da coordenação nacional do MAB, pontua que “a crise é uma das principais causas do rompimento de Fundão”, referindo-se à negligência da empresa Samarco com a barragem, e como a crise política e econômica pela qual o país passa é um dos principais fatores pelo qual a barragem se rompeu.

O preço do barril de minério de ferro caiu quase 50% em menos de dois anos – entre 2013 e 2015 – levando as empresas mineradoras a aumentarem em mais de 100 por cento a produção, utilizando mais água e ultrapassando os limites da barragem, o que ocasionou o maior crime ambiental do país.

Mariana Brito, do Instituto Ibase, explicou como as mulheres são atingidas de forma diferente pelo crime da Samarco. “A mineração dificulta muito a vida das mulheres, vem se apresentar como mais um problema para as mulheres”, afirma. Ainda de acordo com Mariana, as mulheres foram afetadas por um crescimento na violência doméstica, devido ao aumento do alcoolismo nas regiões afetadas pelo crime.

Outro fator que afeta a vida das mulheres é a questão da violência sexual, que aumenta após crimes como este praticado pela Samarco, Vale e BHP. Após o crime, as empresas costumam enviar mão de obra, normalmente composta somente por homens, para realizar a limpeza e conserto dos danos causados nas regiões afetadas. Com isso, casos de estupros crescem consideravelmente.

Também participou na mesa Judith Marshall, canadense que trabalha com a questão da mineração em seu país. A estrangeira pontuou que “o capital está tentando se expandir sem considerar a classe trabalhadora. Os governos tem um relacionamento íntimo com as empresas”.

Representantes da CUT e de sindicatos falaram sobre o golpe e sua influência no criminoso desastre ocorrido na Bacia do Rio Doce, e também na cultura brasileira de culpabilização das vítimas. “No nosso dia a dia existe uma cultura da culpabilização do acidentado no Brasil. A mídia vai fazer de tudo para esconder a verdade. Não sei o que é pior, a ausência do Estado ou quando ele é ativista das empresas”, afirma Anselmo Braga, do Sindipetro.[15]

Mesa III - Análise de lideranças artísticas e intelectuais sobre o crime[editar]

Artistas na mesa:

Atividade Cultural[editar]
Dia 04 de novembro de 2016[editar]
Mesa IV - A violação dos Direitos Humanos das populações atingidas por Barragens e os desafios atuais[editar]

Insuficiência do judiciário exige organização e luta dos atingidos. Representantes do Ministério Público, parlamentares, procuradoria federal e especialistas em direitos humanos participam da mesa de debates no Encontro dos Atingidos em Mariana (MG).[16]

Participantes da mesa:

Após um ano do crime da Samarco (Vale/BHP Billiton), ainda não é possível ter a dimensão da totalidade dos impactos da tragédia. A contestação foi unânime entre os participantes da mesa “A violação dos Direitos Humanos das populações atingidas por barragens e os desafios atuais”, realizada na manhã da sexta-feira 4 de novembro de 2016, durante Encontro do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), em Mariana (MG). Representantes do Ministério Público, parlamentares, procuradoria federal e especialistas em direitos humanos compunham o debate.

Desde o acidente, são pelo menos três Ações Civis Públicas em andamento na justiça sobre o caso de Mariana, mas ainda não houve nenhum avanço concreto. A principal crítica é devido à falta de participação dos atingidos nos debates judicias e definições.

Em meados de março, foi realizado um acordo entre a Samarco (Vale/BHP Billiton) e o poder judicial sem qualquer participação dos atingidos, que foi homologado e passou a validar. Após o questionamento de diversos pontos do documento, o acordo foi suspenso. “Aquele que cometeu o crime não pode ser o encarregado por dizer como será a reparação. A empresa tem que agir com boa fé e garantir que todos sejam ouvidos em condições", declara Déborah Duprat, procuradora Federal dos Direitos do Cidadão. A defensora pública federal Lutiana Valadares Fernandes, que presta assistência jurídica aos atingidos na negociação com a Samarco, concorda: "É fundamental a participação dos atingidos".

O crime ocorrido em Mariana não é uma situação isolada. Maria Dirlene, Conselho Nacional de Direitos Humanos, aponta que apenas com um novo modelo energético e de sociedade será possível acabar com essas violações. “O que ocorreu aqui não é um crime apenas dessa região. É um projeto de desenvolvimento que coloca o crescimento a partir da exploração das riquezas naturais”, afirma Dirlene. Ela reforça que essa escolha faz parte de uma lógica do capitalismo, que portanto não se importa que para isso seja preciso destruir vidas.

Exemplo disso é o caso da petrolífera Chevron/Texaco no Equador, onde a população sofreu com a poluição de 68 bilhões de litros de águas de rios e fontes, prejudicando intensamente o cotidiano da população local entre o período de 1972 e 1992. A empresa foi condenada a pagar 8,6 bilhões de dólares por danos e limpeza de uma área de 4 mil quilômetros quadrados na Floresta Amazônica. Robinson Yumbo, do movimento “Unión Afectados por Texaco” conta que apesar da multa, os atingidos vivem as consequências da contaminação até hoje. “A nossa experiência mostra que a luta judicial sozinha não é suficiente, a indenização ainda não foi paga. Enquanto isso pessoas morrem até hoje pela contaminação dos rejeitos, não podemos seguir validando essa impunidade”, reforça.

Durante a mesa, foi realizado um “Voz do atingido” com microfone aberto onde os atingidos pela Samarco puderam desabafar, fazer suas críticas e exigir participação. “Não temos o que comer, não temos com o que trabalhar e não tem oportunidade de emprego em lugar algum. É uma calamidade o que estamos vivendo”, afirma Castro, pescador da bacia do Rio Doce.

Leandro Scalabrim, advogado popular, afirma que ainda há muitos desafios na luta pelos direitos dos atingidos pela Samarco (Vale/BHP Billiton). A invisibilidade dos impactos sofridos pelos pescadores e idosos da bacia do Rio Doce e o não reconhecimento de muitos atingidos e a interrupção na entrega dos benefícios devem ser pensadas pelos atingidos organizados. Ele reforça que o diagnóstico da totalidade dos impactos é necessidade urgente para que se continue o debate a partir da realidade dos atingidos. “Percebemos a insuficiência do judiciário, por isso é fundamental a organização e luta dos atingidos para garantirmos nossos direitos. Só a luta conquista”, conclui. [16]

Mesa V - Apresentação do Dossiê sobre os impactos à SAÚDE relacionados ao rompimento da Barragem[editar]

Apresentação do Relatório sobre os impactos à SAÚDE relacionados ao rompimento da Barragem, feito pela Rede Nacional dos Médicos e Médicas Populares. Teve também a participação e depoimento de um atingido de Barra Longa.

Mesa VI - Os desafios organizativos e da luta na garantia por direitos e recuperação da Bacia do Rio Doce[editar]

Grupos de Trabalho por polos regionais dos atingidos/as, sistematizações:

-Reunião de trabalho com entidades e lideranças políticas.

Intervenção da Ciranda do MAB[editar]

Criada para facilitar a participação das mulheres no movimento, Ciranda reúne crianças atingidas e preparam uma intervenção.

Veja Ciranda do MAB.

Atividade Cultural[editar]

Ciranda do MAB[editar]

Ciranda do MAB na apresentação

Criada para facilitar a participação das mulheres no movimento, Ciranda reúne crianças atingidas.

Cuidar, educar e formar politicamente as crianças são preocupações que o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) também possui. Em todas suas atividades – inclusive no Encontro dos Atingidos da Bacia do Rio Doce, que acontece em Mariana até sábado (5) – o movimento busca construir um espaço específico para os pequenos. Com o nome de Ciranda, esse espaço permite que mães e pais fiquem liberados para participar da programação do evento.

“A Ciranda do MAB começou a acontecer a partir da necessidade das mulheres, que começaram a se organizar no movimento. Para elas poderem participar das atividades, é necessário existir um lugar para deixar seus filhos”, explica Jéssica Portugal, do Coletivo Nacional da Ciranda do MAB.

Aos 11 anos, Dandara Andrioli participa da Ciranda desde que nasceu. Ela é atingida de Minas Gerais e afirma que a Ciranda é muito importante para ela e para sua família. “A gente aprende sobre o que está acontecendo no mundo, sobre o que nossos pais estão discutindo na plenária. Se não tivesse a Ciranda, os pais teriam que deixar as crianças em casa ou levar para a reunião, mas aí eles iam ficar desconcentrados”, relata.

A Ciranda no Encontro tem mais de 30 crianças atingidas, de 0 a 12 anos.[17]

Ciranda do MAB na apresentação

Mais que uma creche
A perspectiva do MAB é que as crianças também são sujeitos da luta dos atingidos por barragens e, por isso, a Ciranda também é um espaço de educação ampla e conscientização sobre a necessidade de transformação da sociedade. Jéssica conta que os temas abordados em cada Ciranda variam conforme o evento.

“Aqui em Mariana, por exemplo, nós trabalhamos temas que estão sendo discutidos nas plenárias, ou seja, o rompimento da barragem de Fundão, a contaminação do Rio Doce e a situação das comunidades atingidas”, conta.[17]

O rio que era doce
A avaliação positiva da Ciranda é unânime entre os pequenos participantes. Lorena de Souza, de 9 anos, é atingida no Rio de Janeiro e só tem a dizer coisas boas. “O que eu mais gosto são as brincadeiras, as músicas. A gente cantou, fez trabalho e brincou na quadra”, afirma.

Atingido pela lama da Samarco (Vale-BHP Billiton), Tiago Vieira, do Espírito Santo, tem 7 anos e conta que desenhar é sua atividade preferida. “Eu gostei de pintar a barragem no papel. Nós fizemos o Rio antes e depois da lama. Antes era limpo, bonito. Depois ficou cheia de barro, tinha peixe morto e ninguém tomando banho”, conta, fazendo referência a uma atividade que abordou o tema da tragédia.

Dandara também adorou essa dinâmica, mas lamenta o quanto a lama deixou o Rio Doce feio e poluído. “Foi muito triste o que aconteceu, com lama não pode mais pescar e nadar”, comenta.[17]

Memória viva através da arte[editar]

Preto, artista de Bento Rodrigues

Wélidas Monteiro, mais conhecido como Preto, expõe suas recordações de 17 anos em que viveu em Bento Rodrigues por meio de instalação artística.

Na entrada da Arena de Mariana, no município de mesmo nome pertencente à Minas Gerais, onde aconteceu o Encontro dos Atingidos por Barragens, o visitante se deparou com um corredor de que ia adentrando da porta até o auditório principal. A instalação “Mar de Lama”, com cerca de dez metros de cumprimento, reproduz em miniatura o percurso da lama de rejeitos disparada pela barragem de Fundão em todo o Rio Doce, de Mariana até foz no litoral do Espirito Santo.

A instalação artística é feita de terra, lona e folhas, com maquetes de casas e animais, representando o impacto que a lama causou no equilíbrio ambiental do rio, nas residências dos atingidos, na sustentabilidade do território, pastos e plantações.

A obra é do artista plástico Wélidas Monteiro, apelidado de Preto. Há um ano, o morador de Bento Rodrigues, começou a expor essa instalação por todo o Brasil para materializar o impacto real da tragédia. A instalação no Encontro já é a décima segunda. Junto ao “Mar de Lama” ele produziu quadros ilustrando a vida em Bento Rodrigues, antes do crime da Samarco (Vale/BHP Billiton): tranquila e cheia de cores.

Maqueta de Bento Rodrigues destruida pela Barragem da Samarco

“Morei em Bento Rodrigues durante 17 anos e lembro-me de cada detalhe e de cada esquina. Depois da tragédia entendi que o mais importante é sempre preservar a memória para que as pessoas enxerguem tudo que a Samarco destruiu. É preciso que saibam que aqui tinha uma casa e que era assim, que aqui tinha um mercadinho e agora não tem mais”, diz o artista. Das 600 casas de Bento Rodrigues ele já retratou 60 casas e se empenha a entregar para cada morador o retrato do seu lar do jeito que era antes do crime da mineradora.

Demais artistas expõem suas manifestações de solidariedade com os atingidos da tragédia. As obras dos fotógrafos Guilherme Weimann, Joka Madruga, Lidyane Ponciano e Leandro Taques foram também expostas durante o encontro. Outra iniciativa é dos irmãos de Ipatinga, Kadosh e Jéssica, que desenharam poesias sobre o tema da tragédia expondo em formato de cordel no auditório principal.[18]

Nota de esclarecimento sobre Encontro do MAB em Mariana[editar]

O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) realiza entre os dias 3 e 5 de novembro de 2016, na Arena Mariana, o encontro que reúne mais de 800 atingidos da bacia do Rio Doce, de outras regiões de Minas Gerais e de outros estados brasileiros para marcar o aniversário de um ano do crime da Samarco.

É uma atividade organizada por nós, atingidos por barragens, com a contribuição de nossos parceiros, que tem como objetivo: denunciar os desdobramentos dos impactos do rompimento da barragem de Fundão e a negação de direitos em toda a bacia; prestar solidariedade a todos as vítimas do rompimento, sobretudo aos familiares de parentes e amigos e debater como construir uma pauta unificada que organize a luta por uma recuperação socioambiental com participação dos atingidos e respeito aos direitos.

Como toda atividade com muitas pessoas, temos o compromisso e a responsabilidade de garantir segurança de participantes e convidados e, por isso, estamos organizados em equipes que coletivamente vão garantindo a organização. Lamentamos a atitude de pessoas, que não respeitam regras mínimas de um grande evento como este, que divulgam informações incorretas com o objetivo de criar desinformação.

Esclarecemos que o jornalista Roberto Verona não foi impedido de entrar no encontro do MAB. Ao chegar na Arena Mariana, ele ignorou as orientações para se credenciar, ser acompanhado pela assessoria de imprensa e desrespeitou a equipe. Apesar disto, ele foi autorizado a entrar. Mais de 40 jornalistas e fotógrafos registram o evento e todos se credenciaram, incluindo órgãos da grande imprensa.

Todos os cuidados de segurança só são necessários porque a Samarco, a BHP e a Vale, como todas as empresas transnacionais criminalizam, perseguem, infiltram, espionam, provocam tumultos e combatem a organização popular atentando contra direitos básicos dos atingidos. Isto está comprovado pelo relatório do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, divulgado em 2010, que comprova que 16 direitos fundamentais são sistematicamente violados pelas construtoras de barragens no Brasil, incluindo o direito de livre organização.

Neste sentido, em um contexto em que a Samarco propaga em Mariana uma ideia distorcida e completamente inverídica sobre os objetivos do MAB, nosso Encontro precisa preservar de forma responsável a segurança e o bem estar de atingidos e convidados.

Este encontro reafirma que somente a autonomia e o exercício do protagonismo organizado são capazes de romper este círculo que busca dividir e enfraquecer a luta pelos direitos. Por isto, continuamos reunidos em Mariana e estamos à disposição para demais esclarecimentos. Atingidos e atingidas, jornalistas e pesquisadores, moradores da cidade são bem vindos em nosso encontro desde que participem colaborando com a segurança e bem estar de todos.

Lutar e organizar para dos direitos conquistar!

Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)[19]

Mensagem ao povo de Mariana-MG[editar]

Carta distribuída na cidade de Mariana-MG o dia 4 de novembro.

Prezados trabalhadores e trabalhadoras, famílias moradoras de Mariana,

Neste período, que marca um ano do grave crime ocorrido com o rompimento da barragem da Samarco (Vale e BHP-Billinton), nós, atingidos por barragens, marchamos desde Regência, no Espírito Santo, até Mariana, em Minas Gerais, fazendo o caminho contrário à lama. Ao chegar nesta importante cidade, queremos deixar uma mensagem ao seu povo, pois entendemos que nossas vidas tem tido muitos pontos em comum: somos todos atingidos por um dos mais graves crimes social e ambiental do mundo.

Muitos de vocês trabalham na produção de minério ou dependem dela, e nós somos famílias atingidas por barragens, moradoras de comunidades e municípios ao longo do Rio Doce que produzíamos o alimento que chega à mesa do povo assalariado e de toda população. Não queremos tirar seu emprego, salário ou renda. Pelo contrário, queremos que todo povo de Mariana permaneça trabalhando e ganhe para viver bem e sustentar suas famílias com dignidade. Vocês são trabalhadores que produzem grande volume de riqueza. No entanto, o nível de exploração é alto. Nos últimos cinco anos, os trabalhadores da Samarco geraram cerca de treze bilhões de lucro para a companhia, algo em torno de 950 mil reais por trabalhador, por ano. Certamente o salário poderia ser mais valorizado e, mesmo que a empresa esteja temporariamente desativada, nenhum trabalhador necessitaria ser demitido.

Também é verdade que pouca ou nada de toda riqueza produzida fica na região. Daquilo que está previsto na lei, os municípios pouco recebem, porque o valor da compensação financeira é baixo e, na maioria das vezes, as empresas pagam menos do que deveriam, situação denunciada pelo próprio Tribunal de Contas da União (TCU). Se não houvesse sonegação das empresas, a vida do povo seria bem melhor, por exemplo, com melhor tratamento de água e esgoto, melhorias na educação e saúde.

Além disso, a maior parte desta riqueza não fica no Brasil, todo minério é exportado e o lucro gerado é enviado aos acionistas na Inglaterra, Austrália es Estados Unidos, onde a maioria dos donos da Vale e da BHP Billinton são banqueiros internacionais que querem lucros cada vez maiores.

Temos plena noção da injustiça. Perdemos vidas humanas, as terras, o rio, a água, a natureza, o local de trabalho e a dignidade. Tudo isto nos traz sofrimento e passado um ano, muito pouco foi feito. Não queremos que crimes como este sejam esquecidos, fiquem impunes ou se repitam. O povo não pode e não deve pagar a conta. Nós vamos continuar do nosso jeito, organizando-nos e lutando pelos nossos direitos, pela vida em plenitude, pelo emprego, por nossas terras, por nossos rios, pela água, pela natureza preservada, e por tudo o que é absolutamente justo e necessário.

A arquidiocese de Mariana tem nos dado todo apoio, bem como a todos os que foram atingidos pelo desemprego e pelas demissões.

Anima-nos a palavra de Dom Geraldo, na mensagem dirigida, no encontro dos atingidos: "Só a luta vencerá a lama". Por isso, contem conosco quando precisarem, certamente seremos solidários para lutar juntos.

Forte abraço dos atingidos e atingidas por barragens.
Águas para vida, não para morte!
Mariana-MG, Brasil. 04 de novembro de 2016.


Um evento feito com carinho por centenas de mãos[editar]

Na cozinha muitas mãos ajudaram.

Por meio do seu olhar, a jornalista Florence Poznanski mostra como se organizam os atingidos para a realização do Encontro dos Atingidos em Mariana-MG.

Uma coisa que nós jornalistas pouco pautamos quando fazemos a cobertura de um evento são seus bastidores. Todos os cuidados, os detalhes que, juntos, tornam um evento bem sucedido ou não. Diferente de outros eventos, o encontro dos atingidos pela tragédia da Samarco está sendo organizado com poucos recursos financeiros, mas é rico de carinhos, doações e atenções.

Dignidade e simplicidade
A infraestrutura é simples. O auditório da Arena de Mariana cumpre um triplo papel, de espaço de assembleia, de diversão à noite durante a cultural e de repouso após das 23 horas, definida como hora de silêncio para respeitar o sono dos participantes. Apesar de ser percorrido em todas as horas do dia e noite por milhares de passos, o espaço está sempre limpo graças à equipe de limpeza que higieniza diariamente os banheiros, troca as lixeiras e orienta os participantes a não deteriorar o espaço. Nada de empresa contratada para prestação do serviço, todas essas tarefas são cumpridas por uma equipe dedicada composta de representantes de cada delegação, mulheres e homens.

O mesmo serve para a segurança, que reveza dia e noite verificando as entradas e saídas, conferindo a identidade dos participantes e chamando atenção em caso de comportamentos inadequados. Fiquei surpresa em descobrir que aquela cerveja geladinha do final do dia não estava sendo vendida dentro do encontro. “Lugar de luta não é lugar de confusão”, frisam os organizadores.

Nós da imprensa recebemos um credenciamento específico com um colete para nos identificar e pudemos transitar livremente em todos os locais com sala dedicada para produção das nossas matérias. Acompanhando os atingidos e os demais participantes desde a saída da marcha em Regência e agora no dia a dia da vida no encontro, os laços se tecem, as histórias de vidas se revelam e se trocam.

Jeito saudável de viver

A mística como conexão

A hora do almoço, onde todos esperam em fila, um prato na mão ‘proseando’ sobre o cardápio, é sempre muito propício a altas gargalhadas. Cada delegação trouxe a quantidade de comida necessária para sustentar seus participantes. As verduras oriundas da agricultura familiar, as carnes doadas pelos produtores locais. Não comemos tão saudável há muito tempo e com variedades vindas de 19 Estados do país!

E se bater uma enxaqueca ou uma dor de tanto andar após a longa caminhada? Podemos ficar tranquilos que haverá alguém para cuidar de nós. A barraca da saúde, composta de enfermeiros e de técnicos da saúde voluntários, acompanhou toda a marcha dando medicações e primeiros cuidados de prevenção. Hoje os participantes podiam até se inscrever para receber massagens relaxantes.

A mística é o jeito popular de lutar
Mas o momento mais emocionante é, sem dúvida, o momento da mística. Esse encontro da luta e da emoção onde todos reencontramos a essência de ser humano, dotados não só de cérebros e corpos, mas principalmente de corações. Um momento de generosidade e de emancipação. Como diz Louise, integrante da coordenação nacional do MAB, “apesar da dificuldade da luta, ela nos mostra como é bonito nos empoderar uns aos outros, isso nos torna mais humanos”.[20]

Ato Publico em Bento Rodrigues-MG[editar]

Ato em Bento Rodrigues pelo 1 ano do crime

No dia 5/11, será de protesto aberto para afirmar que: “Bento Rodrigues pertence aos moradores e não a Samarco”. Será o momento de fazer um grande ato em memória às vidas que foram roubadas pelo crime e reforçar a solidariedade da luta dos atingidos.[3]

No aniversário de um ano do crime da Samarco (Vale/BHP Billiton), aproximadamente mil pessoas realizaram ato político no distrito de Mariana-MG.

Marcha pelo 1 ano de impunidade

No sábado 5 de novembro de 2015, data que marca o primeiro ano do rompimento da barragem de rejeitos de Fundão, aproximadamente mil atingidos e apoiadores marcharam pelas ruas de Bento Rodrigues, distrito de Mariana (MG), em memória das vítimas, pela reparação dos danos causados à população e pela punição dos responsáveis pelo crime.

Organizado pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), em parceria com a Arquidiocese de Mariana, a atividade fez parte da Jornada “1 Ano de Lama e Luta”, que percorreu todo o rastro dos rejeitos da Samarco (Vale/BHP Billiton), de Regência (ES) a Mariana, desde o dia 31 de outubro.

Ato em Bento Rodrigues pelo 1 ano do crime e impunidade

De acordo com Letícia de Oliveira, integrante da coordenação nacional do MAB, o ato político foi realizado como forma de sensibilização, mas também de denúncia à impunidade dos responsáveis pelo desastre. “O que estamos fazendo aqui hoje é um grito de denúncia a todo o mundo para não deixarmos que o maior desastre ambiental do Brasil seja esquecido. Já está mais do que provado que o rompimento de Fundão foi uma tragédia anunciada, ou seja, um crime. Por isso, exigimos a responsabilização dos culpados”, afirma.

Somos todos Rio Doce

Mística em memoria das vítimas do crime

“Estamos vivos e somos muitos”. Foi este o coro entoado durante uma mística em memória das pessoas mortas pelo rompimento de Fundão. “Vestidos” de lama, os artistas carregaram 21 cruzes em memória das pessoas mortas pelo rompimento.

Na mística, uma atriz encenou a dor de Priscila Monteiro, ex-moradora de Bento Rodrigues que sofreu um aborto forçado no meio da lama. “Na boca do mato, estamos vivos e somos muitos”, bradava a artista.

Também foi realizado um culto ecumênico, com a presença do padre Geraldo Martins, que rezou pelas vítimas e por seus familiares.

Justiça
O Greenpeace realizou, em parceria com o MAB, uma intervenção para cobrar a responsabilização dos culpados por este que é considerado o maior desastre socioambiental da história do Brasil.

Foi colocada a palavra “Justiça”, em cima da Escola Municipal Bento Rodrigues, completamente destruída com o rompimento de Fundão. Nos seus escombros, os atingidos entoaram o grito de ordem “Águas para a vida, não para a morte”.[21]

Documento final da Marcha e do Encontro “Um ano de lama e luta”[editar]

Ato em Bento Rodrigues por 1 ano do Crime e impunidade

“Só a luta vencerá a lama.” (Dom Geraldo Lyrio Rocha)

Nós, atingidos e atingidas por barragens, organizações sociais brasileiras e internacionais, reunidos neste dia 05 de novembro, em Bento Rodrigues, distrito de Mariana (MG), viemos nos solidarizar e trazer o máximo de conforto e carinho para os familiares dos que morreram por causa do crime cometido pelo rompimento da Barragem de Rejeito da Samarco (Vale/BHP Billiton), um ano atrás.

Solidarizamo-nos com todas as famílias atingidas, de Regência (ES) a Mariana (MG), que sofrem as graves consequências do crime ocorrido. Recebam, todas e todos, o nosso fraterno abraço.

Grande parte dos que estão aqui marchou desde o dia 31 de outubro, em toda a extensão da Bacia do Rio Doce, fazendo o caminho contrario à lama. Testemunhamos o sofrimento e angústia das pessoas atingidas. Vimos surtos de doenças multiplicando-se aos milhares. As famílias têm medo de beber a água, sacrificam-se indo buscá-la em locais distantes ou gastam seu dinheiro para comprar água mineral. Testemunhamos a enorme angústia, inimaginável tristeza de quem perdeu familiares e amigos, suas referências culturais, sua casa, seu meio de subsistência, o seu emprego e trabalho, os pertences pessoais, os brinquedos das crianças, o rio, a água, animais domésticos, peixes e grande parte da natureza.

É trágico: a lama está em cada lugar, embaixo da areia na beira do mar, nas encostas, nas estradas, nas plantas, no leito do rio e, com certeza, agora se infiltrando pouco a pouco em todas as pessoas que com ela convivem, respirando, comendo ou bebendo dela.

Afirmamos com absoluta certeza que no Brasil, e em muitos lugares do mundo, houve e há uma grande comoção, um sentimento de dor, de revolta, e ao mesmo tempo de preocupação com a vida humana e com a natureza nesta região atingida. Há uma esperança e luta para que este crime não fique impune e que nunca mais se repita.

Mesmo diante de tanto sofrimento e dor, ao longo de toda a bacia do Rio Doce, testemunhamos a existência de um povo forte, trabalhador e lutador, que sofre, mas que tem esperança, que quer a justiça, quer seus direitos, e para isto está disposto a se organizar e lutar.

Denunciamos o crime cometido pela Samarco (Vale/BHP Billiton), que faz parte do sistema econômico vigente. Os grandes empresários e banqueiros submetem os trabalhadores/as à extraordinária exploração. E são absolutamente negligentes com relação às questões ambientais e sociais, colocando o lucro acima da vida.

Denunciamos ainda que estão em debate no Congresso Nacional Brasileiro leis que podem piorar ainda mais a atual situação dos trabalhadores, pois preveem maiores facilidades nos licenciamentos ambientais para a instalação das grandes obras. Esta lógica só privilegia o lucro dos grandes empresários e banqueiros que matam as pessoas e destroem o meio ambiente.

Denunciamos o atual modelo de mineração do Brasil, que viola as leis ambientais e trabalhistas e que visa a flexibilização das mesmas. Um modelo que contamina rios e nascentes, que consome enormes quantidades de água e energia. Tudo isto subsidiado pelo Estado, enquanto a população tem que arcar com o alto custo para o seu acesso. Este modelo torna o Brasil mero exportador de commodities sem agregar valor e sem desenvolver a indústria nacional.

Denunciamos que toda esta situação é autorizada e protegida pelo Estado em todas as esferas de poder (executivo, legislativo e judiciário). Em grande parte dos casos, o Estado protege o capital e as grandes empresas e nega os direitos do povo e o adequado tratamento das questões sociais e ambientais, que poderiam prevenir crimes iguais ao ocorrido com a Bacia do Rio Doce. Vergonhosamente, durante a marcha que fizemos, vimos espiões disfarçados das empresas, policiais militares fortemente armados para coagir os atingidos e proteger os criminosos.

Denunciamos principalmente as empresas Vale e BHP-Billiton, e sua subsidiária Samarco, por este crime. Os relatos nos apontam que há inúmeros indícios de omissão, negligência, desrespeito à vida e à natureza, falta de segurança, falta de acesso à informação, entre tantos outros.

Denunciamos finalmente o “acordão” fraudulento realizado sem a participação do povo atingido e de suas organizações.

Alertamos que há um alto grau de tensão social ao longo de toda a bacia do Rio Doce e que é urgente e necessário o pronto atendimento das demandas apresentadas pela população atingida. Responsabilizamos desde já as empresas e autoridades já nominadas por possíveis incidentes que possam ocorrer, fruto deste alto grau de tensão social, à qual esta população está submetida.

Após um ano do crime, percebemos que em relação aos diretos dos atingidos e trabalhadores pouco foi feito. Diante desta situação, exigimos uma maior agilidade na garantia dos direitos de toda população atingida.

Exigimos a participação popular em todas as decisões e acordos que sejam tomados. E que esta participação seja previamente informada, garantindo o direito de livre organização dos atingidos, sem pressão ou coerção por parte das empresas e das autoridades.

Exigimos que todo povo de Mariana permaneça trabalhando e ganhe para viver bem e sustentar suas famílias com dignidade. São os trabalhadores que produzem grande volume de riqueza. No entanto, o nível de exploração é alto. Nos últimos cinco anos, os trabalhadores da Samarco geraram cerca de treze bilhões de lucro para a companhia, algo em torno de 950 mil reais por trabalhador, por ano. Certamente o salário poderia ser mais valorizado e, mesmo que a empresa esteja temporariamente desativada, nenhum trabalhador necessitaria ser demitido.

Exigimos que o Estado brasileiro e as empresas responsáveis pelo crime paguem a divida social e ambiental com a sociedade brasileira e com os municípios que diminuíram sua arrecadação por causa desse processo criminoso. E que façam a reparação de todas as perdas, colocando todo o seu aparato a favor das famílias atingidas que fazem a justa luta por seus direitos.

Exigimos o pleno atendimento às pautas apresentadas pelos atingidos e suas organizações, e que na implementação de todos os projetos de recuperação seja estimulada e garantida a mais ampla participação popular na solução dos seus problemas, construindo com isso um ambiente propício à autodeterminação popular, com adequada restauração e compensação às perdas havidas.

Exigimos que seja paralisada a construção do Dique S4, o qual inunda o rastro do processo criminoso em Bento Rodrigues e busca apagar a memória do povo; que as ruínas permaneçam lá, intactas, como lembrança desse crime abominável.

Finalmente afirmamos nosso compromisso de fortalecer a organização e a luta dos atingidos e atingidas por barragens em toda a Bacia do Rio Doce. Reafirmamos toda solidariedade às justas ações necessárias para que a vida seja reestabelecida. Que possamos construir um futuro melhor para todos e todas.

Um ano de lama, um ano de luta!

Somos todos atingidos e atingidas!

Brasil, Mariana (MG), 05 de novembro de 2016.

Águas para a vida, não para a morte!

Entidades que assinam o documento[editar]

  • MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens
  • Amigos da Terra Brasil
  • Banda Falamansa
  • Cantor Flávio Renegado
  • Cantor Zé Geraldo
  • Centro de Documentación en Derechos Humanos “Segundo Montes Mozo S.J.” (CSMM) / Ecuador
  • CEPIS – Centro de Educação Popular – Instituto Sedes
  • Cesta Amigos de la Tierra - El Salvador
  • CFMEU Mining and Energy (Austrália)
  • Comitê Solidariedade à luta dos atingidos por barragens e Amigos do MAB dos Estados Unidos
  • CMP - Central de Movimentos Populares
  • CNQ – CUT - Confederação Nacional do Ramo Químico da CUT
  • CNTE - Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação
  • Confederación General del Trabajo - España
  • Consulta Popular
  • CPT - Comissão Pastoral da Terra
  • Daniel Gaio – Secretario Nacional Meio Ambiente - Central Única dos Trabalhadores – CUT
  • Desenvolvimento e Paz – Canadá
  • Deputado Federal Padre João – presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal
  • Euro-deputado Xavier Benito Ziluaga - Partido Podemos - Estado Espanhol
  • Federação dos Trabalhadores da Agricultura Familiar - MG
  • FETRAF - Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras da Agricultura Familiar
  • FEMQUIFERT-MG - Federação Mineira dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas, Plásticas e de Fertilizantes de Minas Gerais
  • FEQUIMFAR-FS - Federação dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas e Farmacêuticas do Estado de São Paulo da Força Sindical
  • FITEM-CUT - Federação Interestadual dos trabalhadores nas indústrias da extração, pesquisa e prospecção de minérios e metais básicos, metálicos e não metálicos da CUT
  • FNDC – Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação – MG
  • FNDC – Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação
  • FNU - Federação Nacional dos Urbanitários
  • Fora do Eixo
  • FUP - Federação Única dos Petroleiros
  • Greenpeace Brasil
  • Grito dos Excluídos
  • Grufides - Perú
  • IBASE - Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas
  • IDEX/Milhares de Afluentes - Estados Unidos da América
  • Jornalistas Livres
  • Jubileu Sul
  • LPJ - Levante Popular da Juventude
  • MAR - Movimento dos Afectados por Represas da América Latina (Movimiento Ríos Vivos Colombia, Movimiento dos Atingidos por Barragens – Brasil, Patagonia sin Represas – Chile, Movimiento Amplio por la dignidad y la justicia – Honduras, Red de Educadores y Educadoras Populares/CMLK – Cuba, Frente petenero contra las represas – Guatemala, Consejo de Pueblos Mayas – CPO Guatemala, Bloque Campesino Indígena Amazónico de Bolivia – BOCINAB, Asociación de pescadores 16 de julio de Cachuela – Bolivia, FUNPROCOOP – El Salvador, Frente Nacional Agrario - El Salvador, Movimiento Popular Patria Grande – Argentina, Rondas Campesinas de Perú, Otros Mundos Chiapas – México, Bios Iguana – México, Asamblea Veracruzana de Iniciativas y Defensa Ambiental – LA VIDA- México, Consejo de Pueblos Unidos para la defensa del rio Verde – COPUDEVER – México, Red Nacional en Defensa del Agua - RENDA – PANAMA)
  • Mídia Ninja
  • MISEREOR - Alemanha
  • MMM - Marcha Mundial das Mulheres
  • Movimiento Patria Grande - Argentina
  • Movimiento Rios Vivos - Colômbia
  • MPA - Movimento dos Pequenos Agricultores
  • MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
  • PJR - Pastoral da Juventude Rural
  • Plataforma Interamericana de Derechos Humanos, Democracia y Desarrollo (PIDHDD Regional)
  • Rede de Médicos Populares
  • Sociedade Sueca pela Preservação da Natureza – Suécia
  • Sindicato Compañia Minera Spence (Chile)
  • SINTRACARBON - Sindicato de Trabajadores de la Industria del Carbón – (Colômbia)
  • SINDIFISCO - Sindicato dos Auditores Fiscais
  • SINDIPETRO - Sindicato dos Petroleiros de Minas Gerais
  • SINDÁGUA - Sindicato dos trabalhadores da purificação e distribuição de água em serviço de esgoto do Estado de Minas Gerais
  • Sitraemg - Sindicato dos Trabalhadores do Poder Judiciário Federal no Estado de Minas Gerais
  • SINDIELETRO - Sindicato dos Trabalhadores Eletricitários de Minas Gerais
  • Sindicato nº1 Compañia Minera Cerro Colorado (Chile)
  • Sindicato Único dos Trabalhadores da Educação de Minas Gerais
  • SINDUTE - Sindicato Único dos trabalhadores em Educação
  • TV Drone
  • Union de Afectados por Texaco - Chevron, Equador
  • War on Want - Inglaterra

Organizações participantes[editar]

EDITE A LISTA ADICIONANDO AS ORGANIZAÇÕES QUE PARTICIPAM E APOIAM A MARCHA!

Links de Mídias publicadas[editar]

Fotos[editar]

Vídeos[editar]

Hastags[editar]

  • #1AnoDeLamaELuta
  • #1AnoDeLamaeLuta
  • #ParaNãoEsquecerMariana
  • #naofoiacidente

Referências[editar]

Ver também[editar]

Links externos[editar]